domingo, 8 de novembro de 2009

Mais curtinhas

Salve Geral (Idem, Brasil, 2009)
Dir: Sérgio Rezende


Uma grata surpresa nosso representante para o próximo Oscar. De longe, Salve Geral pode muito bem ser confundido com um filme sobre violência, mas para mostrar o fatídico dia em que o Primeiro Comando da Capital (PCC) parou São Paulo, em maio de 2006, se interessa muito mais em expor os complexos mecanismos que estão por trás das ações da facção criminosa. Para tanto, se apega à história de uma mãe (Andréa Beltrão) que se vê dentro de tais esquemas de corrupção e banditismo, mas faz isso com o intuito de tirar seu jovem filho da cadeia.

São muitos os momentos em que o roteiro se mostra panfletário demais com frases prontas e de impacto para falar sobre corrupção na polícia, lentidão do sistema judiciário, pobreza que gera violência, etc, etc, tipo de coisas que já estamos cansados de saber. Mas é esse mesmo roteiro que traz boas surpresas e mantém o ritmo do filme sempre constante, numa tarefa que não é nada fácil pelas diversas conexões e personagens envolvidos na trama (e na tramoia). Mas é a personagem de Beltrão a mais complexa de todo o filme, numa ótima atuação e fazendo de sua mãe coragem a guerreira cega que se expõe, se entrega, se sujeita, corre riscos, participa do jogo sujo. Tudo por um filho.


O Caçador (Chugyeogja, Coreia do Sul, 2008)
Dir: Na Hong-jin


Se é bastante fácil identificar O Caçador como um filme policial de serial killer, a sensação de estarmos vendo algo no mínimo diferente para o gênero surge logo depois do primeiro e surpreendente embate entre o anti-herói e o vilão, numa estranha atmosfera de aventura com tiques de comédia, tipo de coisa que os sulcoreanos adoram inventar para fazer sair da mesmice. Mesmo assim, o resultado fica aquém do esperado porque o filme tem tantas reviravoltas que acabam enfraquecendo o todo com seus altos e baixos, principalmente na parte final. Eom Joong-ho (Kim Yun-seok) é um ex-detetive que largou a profissão para gerenciar um negócio de garotas de programa; quando suas moças começam a desaparecer, ele quer saber quem é o responsável.

De longe, poderíamos dizer que Joong-ho só se importa com o lucro de seu ganha-pão (é bastante evidente seu estado de decadência). Mas à medida que a busca pela última garota desaparecida vai se intensificando, fica cada vez mais claro para ele que as moças estão sendo assassinadas. Aí o tom do filme ganha humanidade com o personagem revelando fraquezas. Ainda que conte com situações engraçadas e de absurdo total, o filme não deixa de ter seus momentos mais melancólicos, e, por mais dolorido que seja, não se entrega a resoluções fáceis e assume a dureza da vida de seus personagens.


Te Amarei para Sempre (The Time Traveler’s Wife, EUA, 2009)
Dir: Robert Schwentke


Outra bela surpresa. Uma história de amor que possui na trama um personagem que viaja no tempo não parece cheirar bem, mas Te Amarei para Sempre é tão fiel a sua premissa e os personagens são tão fiéis a si mesmos, que este se torna um filme irresistível. Henry (Eric Bana) descobre desde cedo uma anomalia que o faz desaparecer a qualquer instante e ir parar em outra fração de tempo, seja no futuro ou no passado, coisa que logo se anula e ele volta ao tempo “normal”. O pior: ele não possui controle sobre essa habilidade. Por isso a vida dele é um risco constante ao mesmo tempo em que suas viagens futuristas lhe revelam seu destino, como o fato dele se apaixonar e se casar com Claire (Rachel McAdams).

É muito interessante como toda a narrativa do filme é bem costurada e nada pareça fora de lugar. Logo, logo nos acostumamos com os desaparecimentos repentinos de Henry e vamos nos adequando ao modo de vida do personagem, da mesma forma como a doce Claire. Mesmo ela já sabia que seriam casados porque ele lhe apareceu ainda menina numa de suas viagens, o que faz com o filme esteja sempre nos surpreendendo com esses tipos de descobertas. A história pode ganhar tons melosos no final, mas nada que soe por demais exagerados. Na verdade, o filme transparece muita simpatia e bastante verdade no amor entre os dois.


Audition (Ôdishon, Japão/Coreia do Sul, 1999)
Dir: Takashi Miike


Esse filme me pare um equívoco. Começa muito bem como o drama de Shigeharu (Ryo Ishibashi), viúvo de meia idade em busca de uma nova esposa. Para isso, vai contar com a ajuda de um amigo dentro do ramo de cinema que irá forjar a audição de atrizes para um filme, com a verdadeira intenção de encontrar a mulher ideal para o amigo. É aí que surge a doce e misteriosa Asami(Eihi Shiina); os dois passam a se encontrar e somente ele não percebe que a moça é encrenca garantida. Mesmo quando o suspense começar a rondar a história e ensaiar o pesadelo que está por vir, a tensão criada é bastante eficiente.

Mas o problema é quando o filme assume de vez o tom de horror e investe numa trama de psicologismos e respostas baratas para justificar o comportamento doentio da garota, com direito a flashbacks e viagens oníricas do personagem. O final, tão comentado e polêmico, parece satisfazer somente a necessidade de Miike em chocar e parecer o mais cruel possível, isento de pena para com seu protagonista, num desfecho raso e um tanto nulo. Pode ser pouco previsível, mas a surpresa não me garantiu sucesso.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Curtinhas

Arca Russa (Russkij Kovcheg, Rússia/Alemanha, 2002)
Dir: Alexandr Sokurov


O mérito de Arca Russa não se deve somente pelo fator histórico de inovação ao ser o primeiro longa-metragem filmado todo em um único take, mas sim pela viagem quase onírica a que propõe Alexandr Sokurov, tanto pelos espaços do Museu Hermitage, localizado em São Petersburgo, como através do tempo. Ou seja, pela História. Nada no filme é cronológico e por vezes exige não só um pouco de conhecimento sobre artes plásticas como também sobre a História da própria Rússia, mas nada que prejudique a experiência do filme.

Cada próxima sala a ser visitada e explorada é uma surpresa e a câmera possui uma leveza que passeia de um corredor a outro sem a menor pressa. É também um filme de grande contemplação. Há um personagem guia (Sergei Dontsov) que entra na narrativa com a mesma facilidade com que a abandona, se tornando um anfitrião ao mesmo tempo cavalheiresco e esquisito, no melhor sentido do termo. E é bastante evidente que os trabalhos de figurino e direção de arte sejam primorosos, como não podia ser diferente.


Che 2 – A Guerrilha (Che: Part Two, EUA/Espanha/França, 2008)
Dir: Steven Soderbergh


Depois de lutar ao lado de Fidel Castro para concretizar a Revolução Cubana, apresentado no primeiro filme, Soderbergh dá continuidade à saga do mítico Che Guevara em sua tentativa de espalhar a revolução socialista armada pela América Latina, a começar pela Bolívia. O protagonista não possui muita coisa de mítico nesse projeto duplo porque Soderbergh continua filmando com distanciamento, sem exaltar a figura do Che, mostrando suas fragilidades e os princípios tanto de violência como de determinação em prol da causa revolucionária e da melhoria de vida de povo sulamericano.

Mesmo assim, essa segunda parte perde muito em relação à anterior porque se torna por demais repetitiva e sem grandes momentos, se elevando somente ao final. É como se o filme se acomodasse em sua própria estrutura e transcorresse burocraticamente para contar a (H)história. Esteticamente, a produção continua impecável, com ótimo trabalho de fotografia e trilha sonora pontual, além de algumas mudanças fazerem muito sentido, caso dos planos que surgem aqui mais fechados como que simbolizando o próprio estágio de cerco ao qual Che e seu grupo vão sendo submetidos. O final, sem estardalhaços, soa bastante frio. Era quando justamente a emoção devia estar mais presente.


Atrizes (Actrizes, França/Itália, 2007)
Dir: Valeria Bruni Tedeschi


O início de Atrizes parece prometer uma história em que os dramas e dilemas de atores estarão em primeiro plano. Seria bastante pertinente para o segundo filme dirigido pela atriz ítalo-francesa Valeria Bruni Tedeschi. Uma pena que a história se mostre uma bagunça danada e perde muito por não manter um foco definido. As crises de meia-idade de Marcelline (vivida pela própria Bruni Tedeschi), uma atriz que passa a ser atormentada pela personagem da peça que está ensaiando, se mistura com o surgimento de diversos outros personagens em cena.

E existe uma interessante vontade de tornar tudo mais atraente ao incursionar o filme por um tom fantástico, pontuando alguns momentos de surrealidade, mas são tão vazios e fracos que perdem o propósito. Embora os personagens surjam pouco desenvolvidos pelo roteiro, há bons atores no time. O melhor deles é Mathieu Amalric, fazendo de tudo para que seu diretor teatral seja o mais inconstante possível; Louis Garrel, por sua vez, cria com muita facilidade um galã. Mas na junção de todos esses elementos, bate uma impressão forte de que a falta de maturidade é o maior problema aqui.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pseudopsicanálise

Anticristo (Antichrist, Dinamarca/França/Alemanha/Itália/Polônia/ Suécia, 2009)
Dir: Lars Von Trier


Quando Anticristo foi lançado em Cannes 2009, Lars Von Trier anunciou no material de divulgação da imprensa que o filme foi feito somente com 50% de sua capacidade intelectual. Imaginei de cara que se tratava de uma esperta forma de promover o projeto porque, convenhamos, Von Trier é um grande marqueteiro de si mesmo. Mas depois de visto o filme, eu até que acredito nessa historinha. Para quem já fez coisas sensacionais como Ondas do Destino e Dançando no Escuro, além da obra-prima que é Dogville, Anticristo parece obra de cineasta decadente. É quase uma piada.

Quando o casal formado por Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe perde o filhinho único num acidente doméstico, ela (os personagens não são chamados pelos nomes) entra em estado de depressão e culpa intensa pela morte da criança. Os dois então se refugiam numa cabana no meio da floresta para tentarem se recuperar do trauma.

A sinopse acima possui uma força dramática incrível, mas a execução encaminha a história para um jogo de forças entre os dois personagens que primeiro se torna repetitivo, para depois se revelar confuso e sem nexo aparente. Um filme descontrolado que tenta vencer pelo choque das cenas “fortes”, tão comentadas por onde foi exibido.

É bastante interessante que o personagem do marido seja um psicanalista e, no estado de descontrole em que sua mulher se encontra, é evidente que ele tente usar de seu ofício para tratá-la. Mas as sessões de psicanálise familiar caem num discurso vazio e cheio de frases de efeito (com intuito de soarem sérias e vibrantes) que parece consulta barata de botequim. Ou seja, uma boa ideia que o roteiro desperdiça em prol da estranheza que quer vender.

Outro desperdício é uma noção bastante interessante de culpa feminina alimentada pela mãe e que perpassa pela questão sexual. Ela passa a se martirizar não só porque o filho morreu enquanto o casal transava, mas também porque o sexo é o primeiro estágio para se gerar um filho. Portanto, a personagem passa a renegar e lutar contra seu instinto com todas as suas forças, sendo o desejo sexual algo inerente ao ser humano.

Daí, é bastante plausível que ela, num momento de loucura total, mutile o próprio clitóris. Nessa batalha interior, é evidente que a personagem sai perdendo e se descontrola totalmente, deficiência que o filme também compartilha porque não consegue sustentar todas essas nuances e nem conferir consistência a tais complexidades.

A única que parece entender isso muito bem é Charlotte Gainsbourg. Ela se apega tanto e com tanta força a sua personagem, lhe confere tamanha dignidade, que é de longe a melhor coisa do filme inteiro. A atriz se esforça bem para sustentar as loucuras cometidas por sua personagem e é bastante crível em seu processo de degradação mental. O prêmio de Melhor Atriz em Cannes não foi um desperdício.

Porém, no final das contas, as boas propostas se misturam a um monte de baboseira proferida pelo filme e acaba se perdendo no meio de cenas ridículas (como a da raposa que fala – isso mesmo, abre a boca e fala - para o marido, em voz grave e ameaçadora: “O caos reina”). Por essas e outras, Anticristo fica só na promessa de um grande retorno de Lars Von Trier.

domingo, 25 de outubro de 2009

Traídos pelo desejo

Desejo e Perigo (Se, Jie, China/Taiwan/EUA, 2007)
Dir: Ang Lee


Mais um que demora a ser lançado no Brasil, mesmo que o novo Ang Lee, de volta a sua cultura de origem, tenha conquistado o prêmio máximo no Festival de Veneza em 2007 (em 2005 ele havia ganho o mesmo Leão de Ouro por O Segredo de Brokeback Mountain). Agora, ele se apega a uma questão política para construir uma inusitada história de atentado.

Com uma produção caprichadíssima, Lee nos leva à China de meados do século passado para narrar a história de um grupo de estudantes universitários militantes que usam a jovem Wang (Tang Wei, atriz estreante) para seduzir o rico senhor Yee (Tony Leung), colaborador dos japoneses quando esses ocupavam o território chinês. O plano de matá-lo só será realizado se Wang se infiltrar na família dele se passando pela esposa de um rico mercador.

O roteiro focaliza bastante a relação que se constrói entre Wang e o Sr. Yee, dos primeiros olhares tímidos até se tornarem amantes, contando aí com boas doses de sexo, mas nunca gratuitas (além de muito bem fotografadas, como todo o filme), que causaram frisson por onde o filme passou. Mesmo que beirem ao explícito, as cenas são muito pertinentes à trama e a agressividade sexual com que Wang é tratada no início, evolui para uma intensa relação de prazer entre ambos.

Ainda assim, há alguns problemas no filme. Chega a ser um tanto ingênuo acreditar que um grupo de estudantes de teatro tenha conseguido forjar uma fraude por tanto tempo sem que o influente Yee descubra. Mas Lee dirija com tanta segurança e ritmo (apesar das quase três horas, o filme nunca é desinteressante), além de uma elegância nunca pretensiosa, que isso deixa de ser um problema (é frágil também alguns momentos da narrativa, como a primeira tentativa de matar o Sr. Yee).

O que não impede o filme de alcançar ótimas sequências como, por exemplo, a descoberta da farsa dos estudantes, ou então a cena da fuga da joalheria. São momentos assim que elevam o nível do filme. O jogo entre o Sr. Yee e Wang também cria bastante tensão pois parece que a todo instante ela vai ser desmascarada. Fica no ar a dúvida em saber até que ponto o Sr. Yee está sendo totalmente manipulado. E Tony Leung é um grande ator que sabe criar perfeitamente essa nuance de dúvida e ainda trazer dureza a seu personagem. A novata Tang Wei também não faz feio e se equipara em talento.

Figurinos e direção de arte são bastante competentes em retratar aquela época, e há ainda uma bela melodia de Alexandre Desplat que embala os momentos com um minimalismo sóbrio e uma dose de perigo. Mas é a relação entre Yee e Wang a força do filme, construída aos poucos e sempre em evolução. Lee soube aproveitar o clima de tensão política e transformá-la em tensão sexual, mas também fazer nascer dali um quase improvável desenlance amoroso. Mas em Lee, o amor luta contra as disposições do meio em que os personagens estão inseridos, e assim é bem mais difícil vencer as barreiras.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Curtinhas

Nome Próprio (Idem, Brasil, 2008)
Dir: Murilo Salles


Logo na cena inicial de Nome Próprio somos apresentados não só a uma protagonista em estado de descontrole, mas também a um estilo de filmagem seco e direto que acompanha todo o filme. Camila (Leandra Leal) é uma jovem compulsiva e controladora que encontra num blog o lugar ideal para registrar os descaminhos de sua vida conturbada. O fim de um namoro é o início para a degradação física e psíquica de Camila, baseada na personagem homônima criada pela blogueira Clarah Averbuck e retirada de dois livros de sua autoria, Máquina de Pinball e Vida de Gato, além de textos publicados em seu blog pessoal.

E é bem fácil perceber como Leandra Leal sustenta o filme todo, mesmo quando o ritmo da narrativa cai bastante, ou quando o roteiro parece não saber o que fazer com sua personagem (com certeza, se eu tivesse visto o filme ano passado, a atriz estaria entre minhas cinco melhores do ano). Uma pena que o filme caminhe para um final sem muita consistência. O que Camila escreve no blog soa como um discurso pseudo-filosófico, auto-importante, reflexo do vazio da própria personagem. Sua existência parece tão anacrônica e gasta como a internet discada que ela usa.


Nascidos em Bordéis (Born Into Brothels: Calcutta's Red Light Kids, EUA, 2004)
Dir: Zana Briski e Ross Kauffman


Ao fazer um trabalho de fotografia com filhos de prostitutas na Índia, a fotógrafa Zana Briski decidiu pôr as câmeras nas mãos das próprias crianças e ensinar-lhes a arte da fotografia. A intenção é das mais interessantes pelo propósito de tentar revelar as mazelas sofridas por aquelas crianças a partir de uma visão interior, revelando espaços cujo acesso lhes é mais fácil. Mas em determinados momentos o documentário se torna panfletário, pois Zana (também diretora do filme) mostra a si mesma como uma mártir piedosa que faz de tudo para ajudar aquelas criancinhas indefesas, beirando à prepotência. Uma visão de comiseração e autoimportância que busca a comoção da forma mais apelativa possível.

No entanto, o que salva o filme é o bruto e real retrato daquelas crianças que provavelmente não conseguirão melhorar de vida. E o pior é perceber o quanto elas mesmas têm consciência disso. É bem triste ouvir uma delas dizer que gostaria de tirar a amiga de casa porque sabe que acabará seguindo os mesmos passos da mãe.


Almoço em Agosto (Pranzo di Ferragosto, Itália, 2008)
Dir: Gianni di Gregorio


Esse eu perdi durante o Semcine. Na época fiquei muito chateado porque preferi ver Nouvelle Vague, do Godard, que se revelou um porre. O sentimento de chateação se desvaneceu assim que eu consegui conferir o filme italiano e suas fragilidades. A história gira em torno de Giovanni (o próprio diretor Gianni di Gregorio), homem de meia idade que mora sozinho com a mãe (Valeria De Franciscis), já idosa; para conseguir uma graninha e pagar o aluguel do apartamento, ele resolve acolher em sua casa a mãe do síndico do prédio, outra velhinha. A partir daí, mais senhoras passarão a fazer estadia na casa, aos cuidados de Giovanni.

Mas é uma pena que a história nunca engate, deixando para trás uma forte impressão do potencial que todos os segmentos com suas tantas personagens curiosas tinham para ser melhor explorados. O filme se acomoda numa estética de câmera na mão que passeia pela casa, vasculhando cada canto e tenta vencer pela naturalidade, mas acaba soando insosso e desgastado. As tentativas de fazer comédia parecem ser abortadas pelo próprio roteiro. O fato de ser o primeiro filme dirigido pelo roteirista de Gomorra (e produzido por seu diretor, Matteo Garrone), não é uma grande referência porque sã obras bastante distintas tematicamente. No fim, um gosto de frustração.


O Grupo Baader Meinhof (Der Baader Meinhof Komplex, Alemanha, 2008)
Dir: Uli Edel


Esse filme é uma bagunça. Na tentativa de contar a história de forma ágil e eletrizante, o diretor Uli Edel passa por cima de fatos e personagens e deixa o espectador à mercê de uma narrativa que não dá tempo pra respirar nem digerir o que é jogado na tela. De fato, é tarefa muito complexa dar conta num único filme da história do grupo alemão formado no pós-guerra que tinha a intenção de combater um certo fascismo com tendências a retornar aos centros do poder político na Alemanha, mas passou a agir de forma tão brutal e anárquica que acabou gerando uma onda de violência e caos no país.

A história perde interesse pelo simples fato de tudo parecer muito rápido, os personagens somem da narrativa com a mesma regularidade com que as ações se repetem o tempo todo (muita coisa no filme é explodida), sem falar nos furos de roteiro que por vezes se tornam difíceis de identificar por conta da pressa da montagem. E essa parece ser a grande culpada, porque se pretendia ser dinâmica (talvez para fazer voar os 150 minutos de filme), acaba entorpecendo o espectador e deixando tudo no campo do confuso. Alguém precisa fazer uma reciclagem na cabeça dos velhinhos da Academia de Hollywood que indicou a obra como melhor Filme Estrangeiro este ano.

sábado, 17 de outubro de 2009

Ingenuidade atrevida

Beijo na Boca, Não! (Pas Sur la Bouche, França/Suiça, 2003)
Dir: Alain Resnais

É incrível o descaso das distribuidoras brasileiras com filmes de cineastas tão consagrados e respeitados, como é o caso de Alain Resnais, um dos precursores da Nouvelle Vague e mestre incondicional. Já em seu primeiro filme, Hiroshima, Meu Amor, ele revolucionava a linguagem cinematográfica ao quebrar os limites do tempo e do espaço, numa obra sobre o amor, a paz e, sobretudo, sobre os meandros da memória.

Beijo na Boca, Não!, de 2003, só foi chegar ao Brasil este ano, lançado restritamente, sendo o filme anterior dele, Medos Privados em Lugares Públicos, de 2006, e só estreou aqui ano retrasado. Além disso, esse tipo de distribuição priva muita gente dessa beleza que é Beijo na Boca, Não!, deliciosa narrativa de desencontros amorosos, em forma de filme musical de época.

A história se passa na Paris de 1925 e tem gosto de tempos áureos, muitíssimo bem acompanhada por uma impecável direção de arte e ótimos figurinos no melhor estilo “isto é a aristocracia”. Gilberte (Sabine Azéma) é casada com o industrial Georges (Pierre Arditi), que acredita ter sido o primeiro marido de sua esposa. Mal sabe ele que o estrangeiro Eric Thompson (Lambert Wilson), com quem assinará um negócio milionário, foi casado rapidamente com Gilberte nos EUA anos antes. O motivo da separação? Ele não suportava beijo na boca!

Está armado o circo que ainda inclui na ciranda de desenlances amorosos outros personagens íntimos da família. Todos ganham destaque para defender seus personagens e, dessa forma, contribuem para os mal-entendidos e as reviravoltas da narrativa, tão ágil como os diálogos cantados.

Com leveza imensa, Resnais ganha o espectador de início com facilidade e ainda aproveita para brincar de metalinguagem pondo os personagens para falar diretamente com o espectador ou os fazendo notar a presença da câmera. É o tipo de direção de quem já possui afinidade com o fazer cinematográfico e filma com total segurança e certeza do que quer; quase como uma brincadeira.

As desventuras amorosas dos personagens continuam a interessar o cineasta que flerta com o gênero musical (vide o renovador Amores Parisienses), adotando um modelo não-clássico e seguindo a tradição francesa de fazer seus atores cantarem como se estivessem conversando entre si. Dessa forma, Beijo na Boca, Não! se revela um filme gracioso, leve, despretensioso, quase ingênuo (como sugere o título) e, mesmo assim, um grande espetáculo. É o tipo de simplicidade que nas mãos dos mestres se elevam a níveis de sofisticação das quais nunca nos arrependeremos de conferir. Além de fazer um bem danado.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mostra Cinema Conquista – Ano 5


Já começa amanhã a quinta edição da Mostra Cinema Conquista, que traz para a cidade um sopro de renovação para os amantes do bom cinema. É muito bonito acompanhar um evento que vem crescendo a cada ano e que conseguiu satisfatoriamente se estabelecer no calendário da cidade como grande acontecimento cultural.

No entanto, não farei a cobertura com resenha dos filmes este ano porque estou trabalhando na assessoria de imprensa do evento, o que significa que não devo conseguir assistir a quase nada. E mesmo que consiga, não sei se terei tempo de escrever. Uma pena porque a programação de filmes promete ótimas oportunidades. Além disso, retorna à Mostra a exibição de filmes internacionais depois de dois anos de valorização exclusiva aos filmes brasileiros.

A Mostra acontece de 6 a 11 de outubro. Além das exibições, o evento conta com seminário, oficinas, curso, lançamento de livros e exposições, além de prestar uma bela homenagem ao cineasta, roteirista e escritor baiano Orlando Senna, com a presença do próprio para apresentar alguns de seus filmes e realizar conferências.

Enfim, que a próxima semana seja uma festa de esbórnia para o cinéfilo. Para saber mais sobre a Mostra Cinema Conquista, visite o site clicando aqui.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Curtinhas

Há Tanto Tempo que Te Amo (Il y a Longtemps que Je T’aime, França/Inglaterra, 2008)
Dir: Philippe Claudel


A estreia na direção do romancista francês Philippe Claudel rendeu um dos filmes mais cortantes do ano. A história começa com o reencontro entre duas irmãs que não se viam há 15 anos porque Juliette (Kristin Scott Thomas) estava em algum lugar que só descobriremos depois. Léa (Elza Zylberstein), portanto, acolhe a irmã em casa até que Juliette se reestabeleça. O roteiro é hábil em nunca dar respostas rápidas e fáceis ao espectador; as informações surgem no momento certo e sem pressa, o que não deixa de causar apreensão, acrescido de doses de surpresa. Quando Juliette revela, num momento inesperado, onde esteve e por que, o impacto é enorme.

A dor da personagem parece estar estampada em sua expressão e, dessa forma, o grande trunfo do filme é a brilhante atuação de Kristin Scott Thomas, já que sua personagem carrega uma dor enorme consigo e, ao mesmo tempo, busca se reerguer e dar rumo à sua vida. A atriz sabe conferir dignidade a uma personagem tão sofrida em busca de uma redenção. Não que ela precise do perdão das pessoas ao redor, mas no sentido de aprender a conviver com os atos do passado. Há no filme uma bem sucedida tentativa de fugir dos clichês fáceis e consegue nunca ser piegas. Pelo contrário, da contenção de emoção, o filme alcança uma maturidade pouco vista nas telas de cinema.


Cinzas do Passado Redux (Ashes of Time Redux, China, 1994)
Dir: Wong Kar-wai


Não se podia esperar um filme convencional de lutas marciais dirigido por Wong Kar-wai. Na verdade, estamos diante de um filme de amor, como já era de se esperar, acrescido ao estilo wuxia (acontece algo semelhante em seu primeiro – e ótimo – filme, Conflito Mortal, uma história de amor travestida de filme de máfia). Em Cinzas do Passado Redux, o espadachim Ouyang Feng (Leslie Cheung) é o centro da narrativa cujo caminho será cruzado por uma série de personagens; o filme funciona quase como história episódica, dividido pela passagem das estações do ano e pelas pessoas em busca de Ouyang para que ele contrate assassinos profissionais.

O filme, lançado em 1994, foi levemente reeditado (uma espécie de corte do diretor), tendo som e imagens resmaterizados, ampliando assim sua beleza visual. No entanto, por mais interessante que seja a mistura de gêneros, o filme perde força por manter um apelo visual de cartão postal em detrimento à consistência de suas histórias, cujo foco e interesse vão se perdendo com a mesma regularidade com que os personagens desaparecem da narrativa. As cenas de luta surgem como borrões na tela e o apelo fantástico da narrativa podia ser bem mais explorado.


RocknRolla – A Grande Roubada (RocknRolla, Inglaterra, 2008)
Dir: Guy Ritchie


Guy Ritchie pensa que é Quentin Tarantino. Acha que para ser considerado um cineasta pop dos bons, é só encher seus filmes de diálogos “inteligentes", situações nonsense e fazer umas trucagens com a câmera e a edição. Seu filme anterior, o péssimo Revólver, é bem nessa linha e acaba soando pretensioso e vazio. RocknRolla segue o mesmo caminho, embora seja possível encontrar algo um tanto interessante no meio da bagunça. O grupo liderado pelo ator Gerald Butler forma uma espécie de gangue pé de chinelo que, envolvido com dívidas, passa a fazer parte de um esquema de roubo a um grande empresário, arquitetado por sua própria contadora (Thandie Newton).

Há alguns furos no roteiro e a necessidade de chegar ao fim da narrativa com uma virada surpresa, como se Ritchie estivesse dando uma piscadela de cumplicidade para a plateia. Ideia pra lá de batida, assim como todo o filme. Se existe uma certa graciosidade da cena da dança em que dois personagens trocam informações numa festa sem serem notados, esse tipo de originalidade é o que mais falta ao resto do filme. Ritchie precisa se reinventar, urgentemente. E a contar pelo trailer de Sherlock Homes, isso pode demorar um pouco mais. Espero estar errado.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Triste e sereno

Amantes (Two Lovers, EUA, 2008)
Dir: James Gray

Amantes é tristíssimo. Bem melancólico. Muito por conta de Leonard (Joaquin Phoenix), um homem deslocado no mundo que vê no amor a possibilidade de dar um rumo à sua vida estanque. Mas o problema é que o amor surge em via dupla, pois ele conhece a bela e misteriosa Michelle (Gwyneth Paltrow), que parece ter a palavra “encrenca” escrita na testa, e também a doce Sandra (Vinessa Shaw), filha do amigo do pai de Leonard, podendo representar a união das duas famílias, inclusive nos negócios.

Amantes se configura como drama romântico no sentido mais sincero do termo porque a todo tempo temos esse homem dividido entre dois amores, e ele parece gostar das duas mulheres, cada uma com seus encantos. No passado, teve uma desilusão amora que já o fez tentar suicídio e há uma sugestão de que ele sofra de transtorno bipolar. Portanto, é um personagem marcado.

Mas o diretor James Gray se apega a ele e o faz vislumbrar uma possível felicidade que depende de uma escolha: a aventura de ficar com Michelle ou a segurança proporcionada por Sandra. Todos os três personagens são muito bem construídos nas suas naturalidades, ajudados por um roteiro que mescla a atenção de Leonard ente uma e outra.

E é incrível como Gray filma tudo com uma sutileza enorme, principalmente na forma como a câmera parece espiar os passos dos personagens (como nas duas ótimas cenas no telhado) e na sutileza de cada enquadramento.


Fica óbvio também o talento de Gray em dirigir seus atores, a começar por um Joaquin Phoenix luminoso e tristemente intenso, que parece não se esforçar muito para compor seu Leonard. Gwyneth Paltrow parece até outra atriz porque defende sua personagem com uma força invejável, muito provavelmente sua melhor atuação até hoje. Vinessa Shaw surge bela e sustenta bem a segurança de sua personagem.

Amantes me bateu com um misto de surpresa e admiração por Gray, pois eu não era dos maiores fãs de Os Donos da Noite, que melhorou muito numa revisão. O tom dos dois filmes é bem distinto e, da trama policial familiar, o diretor parte para um filme melancólico sobre as possibilidades do amor e a necessidade de fazer escolhas, muito embora o fator família também esteja presente, uma espécie de marca registrada na filmografia do cineasta. Era assim com Caminho sem Volta, segundo filme de Gray, que se aproxima de Amantes em seu tom melancólico. Aquela melancolia de cortar o coração, mas que faz muito bem a quem assiste.

sábado, 19 de setembro de 2009

Retorno às origens

Arraste-me para o Inferno (Drag Me to Hell, EUA, 2009)
Dir: Sam Raimi


Nem é preciso comentar como os filmes de terror dos últimos anos são cada vez mais castigados por produções pasteurizadas. Há de se louvar, assim, o novo filme de alguém que se fez notar em Hollywood por conta das obras de terror trash que realizou nos anos 80. Por isso não é estranho dizer que o filme de Sam Raimi seja uma delícia, não só pelo gosto de filme B (porém com produção de primeira linha), mas também pelo fator comédia muito bem entrelaçado na história.


A analista de crédito Christine (Alison Lohman) está prestes a ser promovida no banco onde trabalha, mas para isso precisa mostrar mais agressividade nas negociações. Por isso, ela acaba recusando o pedido de extensão de empréstimo da casa da velha (e bizarra) Sylvia Ganush (Lorna Raver), que, se julgando humilhada pela moça, lhe lança uma maldição, fazendo com o que o demônio Lâmia venha arrastar a moça para o inferno no prazo de três dias.

É bastante prazeroso ver como Sam Raimi repensa os clichês do gênero terror e os faz encontrar os lugares-comuns do gênero comédia sem nunca soarem forçados, e ainda funcionam muito bem dentro de seus propósitos. Prova disso é a cena do ataque no estacionamento, uma das melhores sequências do filme, que funciona impressionantemente dentro dos dois quesitos.

Por isso, é recorrente no filme aquela sensação de humor negro que faz com que nos auto-recriminemos por estarmos rindo de algo tão assustador, mas ao mesmo tempo inevitavelmente propenso ao riso incontrolável. E talvez por isso seja mais assustador.

A impressão é de que Raimi se divertiu muito durante as filmagens, pois muita coisa parece agradavelmente nonsense, como o fato de Christine se mostrar aterrorizada somente quando ela está sendo atacada por alguma força do mal; fora isso, ela tenta fingir que nada está acontecendo, sempre contando com a ajuda do namorado (Clay Dalton). Num desses momentos de calmaria, ela visita a família do rapaz e o resultado não podia ser menos que desastroso, e terrificantemente engraçado.

Tecnicamente, o filme conta com ótimos trabalhos de som e direção de arte, além de uma das melhores maquiagens o ano, com destaque para a feição macabra da bruxa Ganush e os detalhes de seu rosto desfigurado, com destaque para a dentadura pontiaguda. Pena que os efeitos especiais não sejam dos melhores, mas funcionam bem, principalmente na sequência da sessão mediúnica.

Um outro ponto interessante do filme, e uma das marcas de Sam Raimi em suas obras de terror (como os sensacionais primeiros filmes da trilogia Evil Dead), é que ele não nutre compaixão pelos seus personagens ou pelo menos não os priva de situações trágicas, com consequências terríveis. O saldo final é um filme delicioso, de reciclagem de gêneros, mas que, em sua cena final consegue mostrar como ainda sabe ser aterrorizante.


PS: Por falar em grandes diretores devotados ao terror, é bom lembrar que filmes novos dos mestres George Romero e Dario Argento estão a caminho. Ainda parece haver solução, meus amigos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Últimos filmes no Semcine


O Seminário chegou ao fim e trouxe poucas coisas boas nos dois últimos dias, exceção clara feita a O Desprezo. Fica um saldo positivo ao fim do evento principalmente por ter proporcionado ao público um contato riquíssimo ao complexo e lírico cinema de Jean-Luc Godard. Por sua vez, a Mostra Internacional não empolgou tanto (e senti muito ter perdido A Boa Vida, de Andrès Wood, diretor chileno do belo Machuca). Agora, aos últimos filmes:


Pau Brasil (Idem, Brasil, 2009)
Dir: Fernando Belens


O público de Salvador encheu o Teatro Castro Alves para prestigiar a estreia do filme baiano Pau Brasil, realizado no próprio estado por artistas locais. Uma pena que o resultado não tenha sido dos mais satisfatórios, embora exista ali uma vontade de fazer um trabalho mais autoral que esbarra justamente na pretensão de ser “forte” ou mesmo bizarro, além da pitada de misticismo. Senti falta no filme de uma consistência maior de direção, já que o roteiro não possui muita força ou a grande quantidade de personagens podiam ter suas histórias mais bem exploradas. Somos apresentados a duas famílias que vivem num pequeno povoado interiorano, não identificado, e possuem desavenças entre si: uma é mais recatada, patriarcalista (pai bruto e autoritário, educação católica para as filhas moças) enquanto os vizinhos são bem liberais (mulher dorme com outros homens, nunca em troca de dinheiro, com a permissão do marido). Como não existe um segmento definido, esperava que os personagens ganhassem maiores contornos, mas o roteiro se acomoda em focá-los alternadamente em suas particularidades, o que é uma pena porque alguns deles, como a mulher liberal, ou seu filho fracote, podiam se tornar bem mais ricos se mais desenvolvidos. Porém, não deixa de ser, plasticamente, uma bela produção do cinema baiano. Que Fernando Belens continue em busca de um cinema mais consistente. Força criativa para isso ele tem.


Kynema Fluxuz Filmes (Idem, Brasil, 2009)
Dir: Pedro Paulo Rocha


Eu juro que entendo os artistas que se propõem a fazer um tipo de obra mais abstrata, anticonvencional, anárquica. Esse tipo de proposta pertence àqueles que são irrequietos de berço e têm o intuito de criar algo novo ou, pelo menos, fora de padrão. Sendo Pedro Paulo Rocha filho do tresloucado Glauber Rocha, não podia ser diferente e os genes do pai com certeza foram legados ao filho no que diz respeito à sua inquietação de fugir dos parâmetros de um cinema convencional. Dito isso, no entanto, é preciso por a mão na consciência e pensar qual a real validade de passar 1 hora e 10 minutos sendo atingido por imagens desconexas em um turbilhão de cenas e sons diversos que não possuem o menor propósito de fazerem sentido. A intenção parece ser a de construir um filme de múltiplas visões e possibilidades de ser (re)feito pelo espectador. Eu não senti vontade alguma de fazer filme nenhum. É uma viagem difícil de embarcar. Exige disposição.


Karamazovi (Karamazovi, República Tcheca/Polônia, 2008)
Dir: Petr Zelenka


Filme de encerramento do Seminário Internacional de Cinema, Karamazovi é quase um embuste, mas tem seus bons momentos. Digo isso porque o roteiro se apega demais ao texto de Dostoievski (Irmãos Karamazovi, óbvio), pois se trata da história de um grupo de teatro tcheco que chega na Polônia para apresentar uma adaptação teatral do texto clássico. Assim, ensaios de cenas inteiras da peça são reproduzidos no filme, deixando pouco espaço para o desenvolvimento dos personagens. Isso soa um tanto como “encheção de linguiça”, não fosse a naturalidade com que o diretor inclui as cenas dos ensaios no meio da narrativa; quando a gente pensa que os personagens estão falando de si mesmos, descobrimos que estão, na verdade, treinando o texto. O personagem mais complexo da trama é o vigia de manutenção do galpão onde a peça será apresentada, pois seu filho sofreu, recentemente, um grave acidente no mesmo local e se encontra em estado grave num hospital. Ele espreita os atores durante os ensaios e talvez seja o que mais sente as palavras do escritor russo, sobre as relações conflituosas entre pai e filhos.


Bem, para finalizar os post sobre o Semcine, deixo aqui meu ranking Godard:

1. O Demônio das Onze Horas
2. Acossado (visto fora do Seminário)
3. O Desprezo
4. Uma Mulher é uma Mulher
5. Alphaville
6. O Pequeno Soldado
7. Carmen
8. Tempo de Guerra
9. A Chinesa
10. Je Vous Salue Marie
11. Passion
12. Nouvelle Vague

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Encerrando Godard no Semcine


O Desprezo (Le Mépris, França/Itália, 1963)
Dir: Jean-Luc Godard



Assim como o primeiro Godard visto no Semcine, o último é mais uma pérola. Depois de tanto Godard na cabeça, O Desprezo soa como uma obra incomum em sua filmografia porque a narrativa é extremamente lenta e plácida, no melhor sentido; é um filme de personagens em que a ação é mais psicológica do que tudo.

Nada de cortes secos, de edição fragmentada, de arroubos estilísticos. Importa no filme a relação entre marido e esposa a partir do momento em que o escritor Paul (Michel Piccoli) começa a desconfiar que sua mulher Camille (Brigitte Bardot, lindíssima) não o ama mais.

Assim, o filme parece pegar emprestada a melancolia de Paul e adota uma postura mais cândida ao registrar, sem pressa, o desmantelo desse relacionamento. Camille, inicialmente despreza Paul por ele se vender aos estúdios de cinema já que foi contratado para reescrever algumas partes do roteiro de uma adaptação do clássico Odisséia (que já está sendo rodado). A intenção de Paul é conseguir dinheiro para dar conforto a Camille, por isso não compreende a atitude da esposa, ainda mais quando ela conhecer e começar a se envolver com o todo-poderoso produtor Jeremy Prokosch (Jack Palance).

O filme traz, então, uma grande preocupação do cineasta, mais uma vez exposta diretamente em sua obra: falar de cinema, mais especificamente do processo de realização cinematográfico. Nesse sentido, é bastante pertinente que o filme dentro do filme, rodado em Roma, seja dirigido por ninguém menos que Fritz Lang (interpretando a si mesmo), cineasta alemão que escapou do país natal nazista, buscando refúgio inicialmente na França, depois no cinema norte-americano (onde realizou grandes obras).

(Interessante pensar nessa questão da feitura dos filmes porque foi essa razão do grande racha entre Godard e Truffaut. Godard não gostou nada, nada quando o amigo fez A Noite Americana, de certa forma uma glamourização do fazer cinema, enquanto ele quis acentuar as dificuldades dos verdadeiros artistas em lutar e se manter no mainstream cinematográfico controlado pelos grandes estúdios. Duas visões distintas do fazer cinematográfico, que distanciaram dois dos maiores expoentes da Nouvelle Vague).

De fato, O Desprezo é uma obra singular na filmografia de Godard pelo tratamento sereno, mas também catalisador de uma crise conjugal. Ao mesmo tempo é doce ao captar toda a beleza e mistério de Bardot, a dor de Piccoli, a melancolia de Lang e, sobretudo, a paixão por um cinema de alto nível.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Jovem espírito

Up – Altas Aventuras (Up, EUA, 2009)
Dir: Pete Docter e Bob Peterson


A única restrição ao alto nível de qualidade dos filmes da Pixar é que sempre esperamos por uma nova obra-prima. Vindo depois da pérola que é Wall-e, Up – Altas Aventuras sofre desse problema ainda mais por ter sido o filme de abertura do Festival de Cannes este ano, recebido com muito entusiasmo. Pode não ser um dos melhores do ano, mas mantém o senso de aventura nas alturas.

À parte a qualidade gráfica dos filmes do estúdio, algo que todos já temos ciência, mais uma vez a Pixar nos apresenta uma história cativante, capaz de divertir e emocionar, e ainda ser consistente em sua narrativa.

O personagem central da vez é Carl Fredricksen, esse velhinho ranzinza (mas de bom coração) que, estando prestes a ser manado para um asilo, prende sua casa a uma infinidade de balões para fazê-la voar e assim fugir dali para ir viver no topo de uma montanha de uma floresta na América do Sul, local onde ele e sua falecida esposa Eli sempre quiseram morar. Só não contava que o jovem e impertinente aprendiz de escoteiro Russel fosse estar na varanda casa no momento do voo.

O roteiro consegue apresentar esses personagens no início de forma exemplar, em especial Fredricksen, desde sua infância quando sonhava em viver grandes aventuras assim como um aviador famoso, o encontro com a menina Eli, com quem mais tarde se casaria, além da vida que construíram juntos, apaixonadamente, até a morte da mulher e sua rotina solitária numa casa rodeada de construções (essa sequência é exemplar no poder de síntese, além de emocionante). Por sua vez, Russel é visto como o garoto solitário, falador e curioso, disposto a ajudar e a ficar no pé do velho. A relação entre os dois vai se fortalecendo e não deixa de ser previsível a proximidade avô-neto.

No entanto, quando os personagens chegam ao local paradisíaco, a narrativa ganha outros caminhos com a inclusão de mais personagens e, apesar de introduzir novos pretextos para mais aventuras, perde um pouco em dinâmica. Os cães que conversam através de uma coleira eletrônica, por exemplo, soam deslocados naquele universo tão natural.

De qualquer forma, o filme celebra a aventura como fator indispensável para a vida e encontra no velho Fredricksen uma estranha representação do espírito aventureiro por conta da idade avançada. Porque depois que uma aventura termina, sempre há possibilidades de começar uma nova, sem receio de ser feliz.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Santo oco

A Festa da Menina Morta (Idem, Brasil, 2008)
Dir: Matheus Nachtergaele



A estreia na direção do ator Matheus Nachtergaele é um filme bastante pessoal, possui carga de autoralidade e sabe ser forte. No entanto, não me diz muita coisa. Quando o filme acaba, fica aquela sensação de que tinha muito mais para oferecer, mas se perde em exageros estéticos e no misticismo que envolve a história, na tentativa de vender algo exótico e não necessariamente uma obra como interesse por aquele ritual que está sendo preparado.

Pois no interior do Amazonas, numa comunidade ribeirinha de pescadores, Santinho (Daniel de Oliveira) possui status de líder religioso porque achou os trapos da roupa de uma menina que desapareceu no lugar e nunca mais foi encontrada. Agora, ele diz receber da menina presságios para o futuro das pessoas e bênçãos para o povo da região. E então, todos os anos as pessoas da região preparam uma espécie de procissão em louvor à menina morta.

Nachtergaele busca um cinema de contemplação, valorizando longos planos e tempos mortos, quase como se o filme pudesse ser visto como uma experiência sensorial. Reforça isso uma maravilhosa fotografia de Lula Carvalho destacando o claro-escuro e enchendo as cenas de contrastes e mistérios. Além do que a própria festa religiosa já possui aquela atmosfera de misticismo, tão própria do interior.

Mas o que o cineasta parece buscar é o desmascaro desse tipo de cegueira religiosa que afeta muita gente. No entanto, por muitas vezes, exagera no tom e parece mais plástico do que consistente nesse propósito. Os personagens são mal construídos e parecem servir como tipos dentro da narrativa, e nem mesmo a qualidade dos atores ajeita as coisas. Jackson Antunes e Cássia Kiss aparecem pouco, mas possuem grande presença (principalmente ela porque surge como a mãe desaparecida há algum tempo). Daniel de Oliveira, por sua vez, surge em overacting e é o que sofre mais pela irregularidade de seu personagem (justo o central).

O filme ainda possui aquela vontade latente de querer chocar o espectador, seja pela afetação histérica de Santinho ou pelo caso de incesto que ele mantém com o próprio pai (incluindo aí uma cena de sexo entre os dois). Nesse sentido, não deixa de ser curioso que o roteiro tenha sido escrito por Nachtergaele em parceria com Hilton Lacerda, o que aproxima o filme de certo cinema pernambucano de “choque” (Baixio das Bestas, Amarelo Manga, ambos do autoimportante Cláudio Assis).

Do exagero e exibicionismo em parecer descolado, o filme dialoga pouco com o espectador; saí do cinema com a sensação de falta, ausência, e menos de provocação e perturbação, como o filme prometia. Não sei, por exemplo, como tanta gente adora a cena em que um rapaz de descendência indígena começa uma dança esquisita e logo é seguido por outros. Parece o tipo de pretensão em soar cult através do esquisito, do insólito, exótico. A mim, tudo soa muito vago.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Seguindo com o Semcine


Je Vous Salue, Marie (Idem, França, 1985)
Dir: Jean-Luc Godard


É muito comentada a polêmica causada por esse filme ao reprocessar a trajetória da Virgem Maria na concepção do filho de Deus. De fato existe semelhança, mas não vejo nada de tão polêmico no filme; imaginava uma narrativa bem mais anárquica. A história é dividida em duas partes, contando na primeira a infância de Maria (Aurore Clément), e a separação de seus pais, e tendo a outra já na fase adulta, quando a jovem Maria (Myriem Roussel) engravida mesmo sendo virgem e passa a ser acusada pelo namorado José (Thierry Rode) de o estar traindo. Não deixa de ser interessante os paralelos da narrativa bíblica com o mundo atual (o ambiente das grandes cidades, José como taxista, o anjo Gabriel como uma espécie de andarilho mau-humorado), embora tudo perca mais força por conta das estripulias de montagem e roteiro fragmentado de Godard, além das atitudes desesperadas e esquisitas da maioria dos personagens. Mais uma vez, as filosofias proferidas pelos personagens soam artificiais e também vagas, principalmente por uma Maria em processo de compreensão do mistério de carregar aquele filho na barriga.


O Conceito Juche (The Juche Ideia, EUA, 2008)
Dir: Jim Finn


Talvez esse filme tenha sido um dos maiores desastres dentro da Mostra Internacional. O cineasta norte-americano Jim Finn mistura documentário e ficção para falar da relação entre um sistema político de um país socialista, nesse caso a Coreia do Norte, com sua produção cultural. Ele se apega ao caso do cineasta do país vizinho do sul (capitalista) que foi raptado na década de 70 para revigorar o cinema norte-coreano. Nesse filme, o cineasta trata das escolas Juche, espécie de centros artísticos coletivos voltados para que os novos “talentos” sejam levados a incluir em suas obras os ideais de uma sociedade repressora, baseada no stalinismo autoritário. Dessa forma, eles são podados de praticar qualquer tipo de contestação ao sistema vigente através da arte. Como forma de denunciar essa situação, o filme se dá bem, mas esbarra no problema de não ter muito mais coisa a dizer do que isso e acaba por se tornar repetitivo e longo, apesar dos 62 minutos de duração.


O Pequeno Soldado (Le Petit Soldat, França,1963)
Dir: Jean-Luc Godard


Bruno Forrestier (Michel Subor) é um desertor da guerra da Argélia que se refugia em Genebra onde se envolve com um grupo revolucionário de direta, muito embora não seja fiel a nenhuma ideologia. Apaixona-se pela misteriosa Veronica Dreyer (Anna Karina). Nesse filme, Godard reflete sobre as incertezas do jovem do pós-guerra em se posicionar politicamente, uma juventude inquieta, quase perdida, mas que já ensaiava os primeiros passos para o viés revolucionário que culminaria com o Maio de 68. Realizado no mesmo ano de Acossado, a obra só estreou em 1963 por conta da censura do governo francês, e é a primeira incursão do cineasta no cinema político, algo bem distante dos ditames da Nouvelle Vague. Mesmo assim, é um filme sóbrio e conta com a graça do cineasta em filmar os descaminhos de seu personagem, por vezes ingênuo, que se divide ainda com o gosto pela arte. Em uma das melhores sequências, Bruno fotografa Veronica e discute com ela, no melhor estilo Godard, sobre a melhor hora do dia para se ouvir Mozart e Beethoven ou se Van Gogh era superior a Gauguin. Como já disse Glauber Rocha em Terra em Transe, “a arte e a política são demais para um homem só”. Talvez na tentativa de abraçar os dois, Bruno tenha se perdido no mundo.


A Chinesa (La Chinoise, França, 1967)
Dir: Jen-Luc Godard


A Chinesa é um dos últimos filmes do Godard antes de embarcar na onde do cinema militante. Se aqui ele revela grande aproximação com o socialismo, ele também deixa claro uma crítica aos jovens da burguesia francesa que passavam a aprender a doutrina comunista de Mao Tsé Tung e queriam empregá-la em prol da classe operária. Na história, um grupo de jovens (vividos por Anne Wiazemsky, Jean-Pierre Léaud, Juliet Berto), em férias, se fecha num apartamento e passam a discutir os ensinamentos do Livro Vermelho de Mao, enquanto planejam o assassinato de um representante do governo francês. Realizado em 1967, o filme não deixa de ser uma antecipação do Maio de 68, através da politização de uma juventude ávida por contestação. O primeiro momento do filme, que se passa dentro do apartamento, soa um tanto arrastado e repetitivo, embora a edição fragmentada e não-linear ainda conferem um charme à narrativa. Mas quando os jovens partem para a ação, a história fica mais interessante e rica em questionamentos, uma vez que os jovens militantes e idealistas podem ser vistos com a ingenuidade de seus atos.